Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por chrisliter em Qui Ago 11, 2011 5:10 pm

Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora




Por Christopher Vieira Jeronimo (Vulgo Chrisliter)

Visualizem o seguinte quadro: você está algemado a uma cama, em uma cabana no meio do campo, a centenas de quilômetros da civilação, sem água e sem comida, e suas únicas companhias são o cádaver de seu(sua) parceiro(a) e um cachorro faminto que está aos poucos comendo o defunto. Tenso, não é mesmo? Pois é exatamente nesse inferno que Stephen King joga Jessie, uma de suas mais complexas protagonistas.

Jessie Burlingame e seu marido Geraldi formam um casal quase quarentão e estão tentando manter a chama do casamento acesa se vão para sua casa de campo para botar em práticas alguns jogos eróticos. Mas alguma coisa incomoda Jessie ao ser algemada na cama, acontece que a ideia de diversão de Jessie nunca foi fazer o papel degradante de uma mulher-objeto feita para saciar o apetite sexual do marido, ela então muda de ideia e tenta convencê-lo a desistir, inicia-se então uma feia discussão entre os dois que culmina num quase estupro e a morte de Gerald, quando este sofre um infarto fulminante recorrente do chute dado pela esposa em seu pênis ereto. Pronto, o que era para ser um inofensivo fim-de-semana cheia de fantasias sexuais se transforma num mortal Jogo Perigoso.

Como dito no começo do texto, Jessie está sozinha, ou quase, já que logo o cheiro do morto chama a atenção de um cachorro abandonado e desnutrido que vê no antes era o marido de Jessie, sua única chance de sobreviver mais um pouco. Logo King começa a tecer a pesada análise psicológica de pobre mulher. A primeira coisa que ele faz é fragmentar a a consciência de Jessie, criando várias vozes imaginárias para dialogar com aquela que seria sua própria voz, um recurso mental usado para impedi-la de enlouquecer de vez e tentar achar soluções para seu problema. Uma delas é chamada de Esposa Perfeita, que representa seu lado submisso ao marido, aos pais e a sociedade, que tenta fazê-la se sentir culpada por tudo que acontece de errado em sua vida, mas que também consegue manter a sensatez da protagonista, em contraposição, surge a voz de Ruth Neary, sua antiga colega de quarto na faculdade, que tentava fazê-la conhecer sua própria força e se impor diante das pessoas, uma voz que destila ironia no intuito de aumentar a força de vontade de Jessie. Outras vozes vão surgindo mais tarde, algumas tentando botá-la para baixo através de zombarias, outras mais otimistas e também aquelas que tentam fazê-la ver sua situação através de uma perspectiva mais realista.

Acontece que aos poucos, memórias da infância começam a vir à tona, sua relação complicada com a mãe e com os irmãos, e seu amor incondicional pelo pai. Mas existe algo terrível em seu passado, que ele fez questão de enterrar bem fundo em sua consciência, uma memória completamente destrutiva, mas que possui o único elemento verdadeiramente capaz de fazê-la sobreviver ao final da atual provação, e ela enfrenta o terrível dilema: quando abrir a caixa de pandora se torna a única maneira de salvar sua vida, o que vale mais a pena?

Jessie aposta que sim, e aos poucos os cacos vão se juntando, e sua relação edipiana com o pai surge com força total, e ele finalmente lembra da noite que mudaria toda a sua vida, sob a luz de um eclipse (o mesmo eclipse testemunhado por Dolores Claiborne, a protagonista de "Eclipse Total") representando o fim de um ciclo (a infância e a inocência) e o começo da terrível vida adulta.

Ao mesmo tempo em que trava uma guerra psicológica consigo mesmo, Jessie elabora vários planos para sair de sua prisão, e nós sentimos toda a angústia e desespero da personagem quando um a um, eles vão caindo por terra, enquanto Esposa Perfeita e Ruth duelam, a primeira tentando convencer Jessie de que ela merece tudo de ruim que acontecer com ela por querer deixar de ser a pessoa submissa que sempre foi e a segunda tentando lhe mostrar que ela deve pensar somente nela se quiser sair dessa, mas no final das contas, ela descobre que vai precisar das duas vozes para isso.

Como se não bastasse os problemas reais, King resolve brincar com o sobrenatural e adiciona uma misteriosa figura à equação, um ser deformado e assustador que surge durante a noite em meio as sombras do quarto para assombrar Jessie. Nesse ponto a obra ganha um novo fôlego, ao questionar a sanidade da personagem: será aquilo um monstro, um fantasma, um Homem, a própria manifestação da Morte ou apenas fruto da abalada imaginação da protagonista? Só lendo o livro para descobrir.

Jogo Perigoso é um dos livros menos populares de King, já que aqui ele se concentra em uma única personagem durante a maior parte da narrativa, e aproveita para eleva seu habitual detalhismo a décima potência, criando divagações o tempo todo e abusando dos fluxos de pensamento (até o cachorro tem seus pensamentos narrados pelo autor, o que poderia soar ridículo, mas que King faz funcionar perfeitamente) o que pode espantar aqueles acostumados ao horror mais visceral de outras estórias de do mestre, mas não seria um suspense psicológico sem esses elementos, mais uma prova de que King sabe muito bem trabalhar com outros gêneros. Um prato cheio para os fãs de profissionais como Polanski e Hitchcock.





FICHA DO LIVRO:

Título Original: Gerald's Game
Título Traduzido: Jogo Perigoso
Ano de Publicação: 1992
Páginas: 169 (Edição de 2000 - Objetiva)
Data de Publicação nos EUA: Maio de 1992
Personagens Principais: Jessie Burlingame, Gerald Burlingame, Ruth Neary, Tom Mahout, e Sally Mahout
Conexões: Eclipse Total
Personagens Citados: Dolores Claiborne, Alan Pangborn, Norris Ridgewick
Cidades da História: Lago Kashwakamak
Estados da História: Maine
Sinopse: Jessie está numa tremenda encrenca: durante um de seus joguinhos sexuais com seu marido Gerald em sua cabana ao lago, ela acaba por acidentalmente matá-lo. E isso não é tudo, o tal joguinho consistia em deixá-la algemada à cama. O tempo está passando, sede, necessidades orgânicas, e traumas de infância começam a por à prova a sanidade de Jessie. Conseguirá ela escapar e vencer seus traumas?
Adaptação: Nenhuma até o presente momento
Derivados: Nenhum até o presente momento
Disponível no Brasil pelas Editoras: Objetiva (1995/2000); Planeta DeAgostini (2004)





CURIOSIDADES:

- Planejada como parte de uma antologia que seria formada também pela novela Eclipse Total. No final das contas, os dois livros foram publicados separadamente.




_________________

chrisliter
Farista sem noção de vida social
Farista sem noção de vida social

Mensagens: 11447
Data de inscrição: 09/06/2010
Idade: 25
Localização: MI6

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por Questao em Qui Ago 11, 2011 5:15 pm

a morte do marido foi a coisa mais insana,tosca e sem sentido que eu vi uahuahua me passa o link via mp para eu ler uahauhuahu mas o livro parece bom auhau

_________________
www.anovatocadocoelho.blogspot.com

entender o temor é estar a salvo do medo pelo desconhecido

Questao
Farrista além das fronteiras da sanidade
Farrista além das fronteiras da sanidade

Mensagens: 23494
Data de inscrição: 12/06/2010
Idade: 29

http://www.anovatocadocoelho.blogspot.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por chrisliter em Qui Ago 11, 2011 5:29 pm

Questao escreveu:a morte do marido foi a coisa mais insana,tosca e sem sentido que eu vi uahuahua me passa o link via mp para eu ler uahauhuahu mas o livro parece bom auhau

Huahuahua, pois é, dá um tom de surrealismo ao livro, culpa do humor negro do tio King, mas a passagem funciona bem. Já mandei os links pra ti!


_________________

chrisliter
Farista sem noção de vida social
Farista sem noção de vida social

Mensagens: 11447
Data de inscrição: 09/06/2010
Idade: 25
Localização: MI6

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por Thiago A.P. em Qui Ago 11, 2011 6:34 pm

Eu Infelizmente Não Li Esse Ainda.

Adoro os Livros Do King Hahahaha

_________________


"Bem vinda ao horário nobre, vadia!" - Freddy Krueger

Thiago A.P.
Farrista desafio aceito!
Farrista desafio aceito!

Mensagens: 3053
Data de inscrição: 13/12/2010
Idade: 18
Localização: Somewhere Over the Rainbow...

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por chrisliter em Qui Ago 11, 2011 7:32 pm

Thiago A.P. escreveu:Eu Infelizmente Não Li Esse Ainda.

Adoro os Livros Do King Hahahaha

Eu mesmo demorei para pegá-lo (só li esse ano), pois eu ficava meio velhaco por ser um livro de um personagem só tendo que enfrentar os demônios do passado, e as críticas que eu lia ou ouvia não eram muito favoráveis, mas não me arrependi nem um pouco da leitura.

_________________

chrisliter
Farista sem noção de vida social
Farista sem noção de vida social

Mensagens: 11447
Data de inscrição: 09/06/2010
Idade: 25
Localização: MI6

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Jogo Perigoso (Stephen King): Abrindo a Caixa de Pandora

Mensagem por Thiago A.P. em Qui Ago 11, 2011 7:34 pm

chrisliter escreveu:
Thiago A.P. escreveu:Eu Infelizmente Não Li Esse Ainda.

Adoro os Livros Do King Hahahaha

Eu mesmo demorei para pegá-lo (só li esse ano), pois eu ficava meio velhaco por ser um livro de um personagem só tendo que enfrentar os demônios do passado, e as críticas que eu lia ou ouvia não eram muito favoráveis, mas não me arrependi nem um pouco da leitura.

Vou Atrás Do Livro Para Ler, Então

_________________


"Bem vinda ao horário nobre, vadia!" - Freddy Krueger

Thiago A.P.
Farrista desafio aceito!
Farrista desafio aceito!

Mensagens: 3053
Data de inscrição: 13/12/2010
Idade: 18
Localização: Somewhere Over the Rainbow...

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum