França enfrenta crescimento da rejeição aos pobres

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França enfrenta crescimento da rejeição aos pobres

Mensagem por Koppe em Qua Nov 02, 2016 11:27 pm

Por Lúcia Müzell
Publicado em 02-11-2016 Modificado em 02-11-2016 em 18:15


São os próprios desabrigados que dizem: sentem-se cada vez mais hostilizados na França. Incêndios voluntários de abrigos e agressões por parte da população, abandono pelo governo. O contexto negativo levou a associação ATD Quart Monde, de combate à miséria, a criar um novo termo para designar o fenômeno, “pobrefobia”, ou a rejeição aos pobres.

Primeiro, a crise econômica e o alto desemprego fizeram a condição social de milhares de franceses cair desde 2008. Em 2012, havia 140 mil pessoas sem lar em  toda a França, o que significava um aumento de 44% em 10 anos.

Depois, o país entrou na rota dos migrantes que buscam asilo na Europa – muitos deles, indo parar nas ruas das grandes cidades. Resultado: para muitos franceses, o aparecimento dessa pobreza aos olhos vistos gera desprezo, em vez de solidariedade.

Em pouco mais de um mês, quatro abrigos para refugiados foram alvo de incêndios criminosos na França, enquanto as barracas de moradores de rua são atacadas cotidianamente. Outro exemplo é a verdadeira batalha judicial dos moradores do chique 16º distrito parisiense para evitar a construção de um imóvel para moradias sociais. Após perderem a disputa, eles agora querem impedir a abertura de um abrigo para moradores de rua no bairro.

Para 36%, pobres “não se esforçam”

Essa mudança de percepção é atestada por pesquisas. O Centro de Estudos e Observação das Condições de Vida (Credoc, na sigla em francês) avalia o sentimento dos franceses sobre os mais pobres desde 1978. Hoje, o índice de entrevistados que considera que os pobres “não se esforçaram para sair dessa situação” é de 36% da população, contra 25% há 20 anos.

“Em geral, os franceses costumavam ser muito sensíveis ao contexto econômico: quando a taxa de pobreza aumentava, eles tinham mais empatia em relação aos menos favorecidos e consideravam que ‘essas pessoas não tiveram uma oportunidade para se dar melhor’”, disse a diretora Sandra Hoibian ao jornal Le Monde. “Mas a crise de 2008 marcou uma postura atípica: a opinião pública passou a se mostrar mais severa sobre os mais modestos e encara que eles mesmos devem se virar e superar as dificuldades”, explicou.

As associações que auxiliam as populações em dificuldades notam uma diferença flagrante nos últimos 10 anos. “Essas pessoas sofrem discriminações diárias, que tornam a vida delas ainda mais difícil. São médicos que se recusam a atendê-las, escolas que não deixam os filhos de pais desempregados comerem na cantina escolar, prefeituras que fazem de tudo para impedir o acesso dos mais pobres a uma habitação”, relata Marie Aleth Grard, vice-presidente da ATD Quart Monde.

Discurso “antipobres” se populariza

As entidades ressaltam que o discurso “antipobre” se generalizou nos últimos anos entre políticos e governos, a exemplo do ex-presidente Nicolas Sarkozy, que não apenas exaltava a classe A, como designou os jovens de periferia como “bando de gentalha”.

Fréderique Kaba, diretora de missões sociais da Fundação Abbé Pierre, uma das mais engajadas na luta contra a pobreza, avalia que a crise dos migrantes acentuou o problema, mas não é a sua principal causa. Como Grard, Kaba também considera que os comentários dos políticos e a multiplicação de medidas que prejudicam as classes populares são os maiores responsáveis pela criminalização da pobreza por uma parcela crescente de franceses.

“Hoje, os governos estão usando os recursos que antes eram destinados a ações sociais para diminuir a dívida, e isso gera uma cultura e uma percepção da pobreza pela população que estão mudando”, afirma. “Todas essas decisões, esses comentários maldosos e as palavras escolhidas pelos políticos para falar sobre o assunto na mídia levam, implicitamente, a responsabilizar os pobres pela situação econômica e social deles.”

Grard lembra que, ao contrário do que os políticos dão a entender, as fraudes nos programas sociais representam apenas 2% dos gastos da pasta – mais uma vez, ressalta, o pobre é apontado como o responsável pela própria miséria. “Eles são tachados de preguiçosos, de mal-intencionados, quando na realidade vivem em uma situação extremamente precária e têm cada vez menos ajuda do Estado para melhorar de vida”, afirma a vice-presidente da ATD Quart Monde.

Para combater os preconceitos, campanhas de esclarecimento sobre a verdadeira condição dos menos favorecidos são feitas com frequência. “Mas é preciso que as pessoas que difundem essas ideias também parem de ser recebidas no horário nobre da televisão”, sublinha Kaba.

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